31.08.02

Meu irmão veio me visitar – meu irmão querido – e me explicou sobre os neurotransmissores, assim, bem por alto, notei que tem a ver com sinapse. Fui verificar no Google, esquece, não dá pra mim. Mudando de assunto. Ele me disse que eu deveria escrever no blog mas o que – aquelas sensações que eu sinto e me faz chorar? Não, ele disse, escreve outras coisas. Hum. Outras coisas. Vou jogar então o Jogo do currículo com a Angela. Mas a menina é casca grossa!

Angela: Já dormi numa casa da arvore.
Marina: Ahhhhhh, eu nunca!
A: Já beijei vários atores mas nunca na boca.
M:Também
A: Já namorei um francês. Já namorei um italiano.
M:Nunca namorei um estrangeiro, humft!
A:Nunca fui expulsa da escola. Mas fui suspensa.
M:Também, fumando no banheiro.
A:Já mastiguei hóstia pra ver se era verdade que saía o sangue do Deus.
M: Eu não. Pecado. (Ou já?)
A: Já roubei nas Lojas Americanas. Parei. Era muito boa.
M: Nunca roubei nas L.A. Uma vez vi uma colegial roubando uma bala e mostrei pra minha mãe. Eu era bem pequena. Ela me fez crer que aquele era o pior dos crimes. Minha mãe também... francamente!
A:Já dancei, mambo, valsa.
M:Nunca...
A: Nunca consegui sambar.
M: Nem eu, mas cheguei a ter umas aulas com Dona Juju, a copeira. Na cozinha do trabalho mesmo (hohoho)
A: Nunca abortei.
M: Nem eu
A: Já sentei ao lado do Sting.
M: Também, pisc*
A: Já dormi no colo de um desconhecido.
M: Também! Vôo SP-NY. Dormi direto deitada em cima dele, só acordei quando ele me cutucou pra dizer que a comida ia ser servida. Ele achou normal, sempre tinha ouvido dizer que as cariocas eram "fáceis". Bleargh.
A: Já senti desejo e ternura pela mesma pessoa.
M:Também já.
A: Já andei de helicóptero com um tio louco, que pousava como se fosse avião.
M:Nunca andei de helicóptero
A: Já fiquei três minutos e cinqüenta e oito segundos sem respirar.
M: Debaixo d'água? Beijando? Se for beijando eu também!
A:Já ajudei a construir um veleiro.
M: Ahhh....
A: Já participei de um filme.
M: Já fui figurante de novela, sem querer
A: Já beijei um sapo pra ver se virava príncipe.
M: Eca!
A: Nunca comi caviar ou escargot e jamais comerei.
M: Idem, idem.
A: Acampei. Muito. Mas nunca consegui montar barraca sozinha.
M: Eu nunca acampei.
A: A primeira vez que entrei no mar tinha seis meses, soube nadar desde sempre,
sempre amei o mar.
M: Não sei com que idade entrei no mar pela primeira vez mas também sempre soube nadar.
A: Já tive um pomar.
M: Já tive um pomar também.
A: Já tive um filho.
M: Também, dois
A: Já caí de moto e me ralei todinha.
M:Já me arrebentei numa mobilete
A: Já tive uma casa.
M: Também. Minha casa tinha sete quartos e uma piscina cheia de escorpiões.
A: Já saí do meu corpo.
M: Ahhhh! Esse é meu sonho!
A: Aprendi a dirigir com um piloto.
M: Pisc*
A: Já guiei num autodromo. Já fiz a serra de Petropolis no talo, desgarrando no precipício.
M:Uau...
A: Já fiquei pendurada num precipício.
M: Puxa...
A: Já caí de um precipício.
M: Puxa!
A: Nunca saí do Brasil mas conheço algumas cidades do mundo como a palma da minha mão.
M:Já saí do país. NY é meu mapa sentimental.
A:Já li meu destino nas mãos, nos astros, na areia, nas cartas, nas pedras, nos olhos, na aura,
na alma, no passado e no futuro; nunca o presente.
M: Já leu em borra de café? Perdi o interesse por essas coisas.Nunca conheci ninguém que acertasse. A não ser um rapaz uma vez, que vendia posters do Che Guevara no pilotis da Puc. Ele olhou nos meu olhos e disse: Você está grávida. Pediu licença para apalpar meu tornozelo e teve certeza. Fiz exame, deu negativo. Mas a ciência estava atrasada e ele certo.
A: Já fiquei cinquenta e três dias sem sair de casa.
M: Por motivo bom ou por motivo ruim?
A: Nunca ganhei em jogo.
M: Ganhei 1350 reais num bingo com o Pratinha :))
A: Já engordei quarenta e dois quilos.
M: Sempre fui magrinha
A: Conheci seis pessoas que cometeram suicídio.
M: Eu era pequena e minha empregada me levou para ver a vizinha da porta ao lado. Ela estava caída no chão da sala, com o sangue escorrendo do ouvido, nunca vou esquecer. De noite perguntei do que ela havia morrido e minha mãe chutou uma doença qualquer. Não foi surpresa pra mim, eu já sabia que os adultos mentiam. Depois, muitos anos depois, meu primo fez a mesma coisa mas não tive coragem de vê-lo. E no mês seguinte, a Ana Cristina César se jogou da área do seu prédio. Foi o primeiro enterro que fui, como adulta, representando minha família.
A: Já tive um acesso de riso num velório.
M:Eu sempre em igrejas...
A: Já tive um acesso de riso numa peça do Geraldo Tomás.
M: Hohoho (acho que também teria)
A: Já tive um acesso de riso na cama.
M: Hummm
A: Já tive olho no olho com uma onça pintada.
M: Ahhh
A: Aliás, no quesito natureza, já corri de jacaré, já fui abraçada por urso,
já fui perseguida por coruja, já fiquei agarrada às cordas do píer
enquanto passava o tornado.
M: To começando a achar minha vida sem graaaaça....
A: Já caí do cavalo.
M: Também, e desmaiei.
A: Nos verões da minha infância nadei com golfinhos.
M: :)
A: Jamais imaginei que fosse precisar ir tantas vezes a uma delegacia.
M: Só fui a uma até hoje.
A: Já perdi a oportunidade de ficar calada.
M: Eu tantas....
A: Já chorei por compaixão.
M: Muito, muito
A: Já ri de desprezo.
M:Idem
A: Já me achei o máximo.
M: Também...Ai, que saudade (heheh)
A:Já me achei.
M:Esse é o ano em que vou me achar. Inshalá!




28.08.02
Você tem visto o horário eleitoral? Já escolheu em quem vai votar? Duda, Nizans ou Patrícia Pillar?


26.08.02
Meu médico contou que não faz sentido dizer "minha serotonina caiu". Ele disse que virou moda falar em serotonina e os laboratórios médicos estão deitando e rolando. Que agora esse neurotransmissor cura até unha encravada (sic). E, pela quinta vez, me explicou, entrelaçando os dedos das mãos, como atuam os neurotransmissores. Não entendi uma vírgula.


23.08.02
Ia escrever sobre o dia de hoje, pancadão. Mas meu filho já contou, ao modo dele, comendo os erres, como se a gente não gastasse os tubos de escola :)

E trocando o C pelo K, sem nem saber que um cara, chamado Glauber Rocha, já escrevia de maneira internética antes da internet.


Sexta Pela primeira vez na vida entrei numa delegacia. Parei de fumar pra sempre. Salão de cabeleireiro. Terra à vista. A vida é chatinha assim mesmo ou ainda não estou boa? Etc.


22.08.02



"Are you Dorothy Parker?" a guest at a party inquired. "Yes, do you mind?"




Quando ela pega um táxi e o motorista pergunta qual o destino, a vontade dela é dizer, não importa, vai indo, indo e não pára nunca.



21.08.02
Irede Cardoso, jornalista (São Paulo, 1970)

Desceu do carro para abrir a garagem e o garoto meteu o revólver na cara dela. Assalto, dona! Entraram os dois. A empregada percebeu, pulou o muro, foi na vizinha, que ligou para a polícia que chegou e cercou tudo. Ela:
- É melhor você fugir, garoto. Vem por aqui. E, olha, volta amanhã às cinco da tarde pra continuar o assalto.
E ele voltou no dia seguinte na hora marcada. Ela arrumou um emprego para ele na Folha de S. Paulo.
A última notícia que eu tive dele é que era chefe do departamento de entregas por caminhões.

(Verbete de Minhas Mulheres e Meus Homens, de Mario Prata)



20.08.02
Doses de serotonina Francisco comprou uma lata cor-de-rosa, em forma de coração, cheia de sonhos de valsa (Frauzinha odeia). Há tempos eu estava de olho nela, não pelo chocolate mas pela embalagem. Claro, sou dessas mulheres loucas por latinhas (acho que não conheço nenhuma que não seja).

Clarinha desenhou seus anjos, de mãozinhas postas e auréola, que adoro.


Descobri uma serotonina nova: as crônicas de Antonio Maria. Que maravilha! Comprei esse livrinho ( Paz & Terra, minúsculo, bem menor do que esses que chamamos de bolso), em maio, acho, mas, graças a Deus, não tinha lido ainda. Pra mim, já que tudo me aborrece, foi um achado. Estou lendo agora, na cama, de pijamas e o mais feliz que posso ser, nesse momento.

Sobes e desces. Sobes e desces. A vida lá fora me esperando: quando eu estiver pronta eu vou :)


16.08.02




Denis Piel

Minha serotonina caiu. Despencou. Não sei como se fala cientificamente mas não importa. Você sabe que serotonina é tudo, não é? A minha caiu e me deixou na pior. Por que sem ela, meu bem, você não toma nem um chicabom. Sem ela não há energia, nem alegria e nada parece realmente valer a pena. Mesmo que você tenha filhos lindos, marido bacana, amigos, blábláblá. Mesmo que você seja a Jennifer Aniston e tenha tudo aquilo que ela tem . Mesmo assim você não se sente feliz. A felicidade é química.

Este post não é uma reclamação ou uma tentativa de me fazer de vítima (nun-ca), por que sei que existem coisas muito, muito piores do que isso. Resolvi escrever (e talvez me arrependa - não gosto de publicar coisas tão íntimas assim e, pior, não consigo escrever bem!) por que tenho recebido muitos emails simpáticos, de pessoas que notam que ando meio ausente. Um deles, de um rapaz chamado Nelson, admirava meu estilo de vida. Ah, Nelson, se você visse meu estilo de vida no momento, bleargh. Deitada, olhando pro teto, esperando a minha química voltar ao normal. Controlar a ansiedade é difícil também e ela só atrapalha.

Eu tinha uma amiga (no passado por que faz muito tempo que a gente não se vê) que vivia dizendo “Ah, nessa época eu estava nos Estados Unidos”, sabe como é? Você comenta uma novela, um show do Cazuza, uma eleição e ela “Ah, nessa época eu estava nos Estados Unidos”. Assim que eu me sinto, depois de uma rasteira dessas. Serra caiu? O dólar disparou? A atriz cortou os cabelos e está namorando o galã das 8? Estou por fora. Estou nos Estados Unidos.

Meu médico, quando eu reclamo que não agüento mais não poder fazer coisas, sair, me divertir, trabalhar, me diz para eu imaginar que estou com as duas pernas quebradas, imobilizada na cama. Pode crer que não é a mesma coisa.

Se eu estivesse engessada, ia pegar um monte de filmes na locadora, ou ficar assistindo os filmes a cabo, feliz da vida, comendo pipoca, alugando as pessoas (“Pega uma régua aí pra eu coçar a batata da perna, anda, rápido!”, “Compra uma Contigo pra mim e um pote de Napolitano. Duplo!”). Colocando a leitura em dia, tanta coisa legal pra ler! Mas não caí e quebrei as pernas, foi a serotonina que caiu. Bem mais complicado, sabe?

Porque você pega um livro mas não consegue se ligar no que está lendo (crônicas antigas do Drummond são algumas das poucas coisas que consigo ler), televisão nem pensar (nem Os Normais!), jornal não dá por que as notícias não ajudam (claro). No outro dia peguei uma Quem, especial Sorriso. Juro por Deus que existe um troço desses nas bancas. Todo mundo rindo com seus dálmatas, seus biquinis, muito sol, muita pista de dança. Você se controla para não picar a revista em pedacinhos e diz apenas “A Débora Secco parece muito cansada para 22 anos”.

Conversar com os amigos é impossível – todos os assuntos te escapam na hora H. Quer saber a verdade? Não há assunto. É como se você não tivesse tido nenhuma experiência na vida, nem aprendido nada. Também não é hora de aprender algo novo, a memória não ajuda.

Então você fica deitada na cama, os pensamentos ruins fazendo fila e se empurrando pra ver qual vai se manifestar primeiro, daí você chora, tenta pensar coisas boas mas não consegue. Etc. Este etc é um mundo de sensações ruins.

Meus amigos me ligam muito e isso me angustia, por que eles não entendem como esse processo demora. O exemplo que eu gosto de dar é fazer a pessoa imaginar um carro, um fusca ou um mustang, não importa. Ele precisa de gasolina para andar, certo? Eu sou este carro e combustível está sendo colocado diariamente, porém com conta-gotas. Conta-gotas, sabe lá o que é isso?Tem que dar um tempo para o tanque encher, pelo menos o suficiente. Um bom tempo. Não parece fácil de entender?

Parece que você nunca mais vai voltar ao seu normal, que o seu normal é esse, sem graça, sem charme e muito burra. É uma chatice, viu?

Estou escrevendo também por que sei que deve ter alguém que me lê que tem o mesmo problema que eu. Então também é uma espécie de tamos aí. Estou aqui lutando, achando tudo meio sem graça, mas esperançosa por que sei que vai ter uma hora que tudo voltará ao normal. Então é isso. Todo mundo tem defeitos. Só a bailarina que não tem.

(Todo esse desestímulo atinge também o ato de escrever. Se na cama, preparei mentalmente um texto muito do bacana, na prática saiu esse desastre. Aos poucos vou tentar melhorá-lo. Conserte você mesmo as vírgulas e o erros de ortografia, tá? Beijos!)



12.08.02
Essa noite sonhei que era manicure e estava feliz demais, trabalhando num salão onde o cliente entrava pela janela.






"Quando olhei a minha volta, o lugar estava sujo, e então decidi limpar tudo." Jeremy Irons, explicando por que pegou material de limpeza e fez uma faxina geral no saguão do aeroporto de Shannon, na Irlanda.




09.08.02
Acabei de assistir uma entrevista com o Stédile, na CNT. Coisa raríssima. Minha admiração por ele aumentou, a ponto de achar que realmente só existe um partido para se votar, nas eleições para presidente.



Um dia a Cris me deu um livro da Martha Medeiros.Nunca me interessei em conhecer sua poesia. Hoje resolvi abri-lo. E , de cara, li um poema que considero lindo.

eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato




06.08.02
O general voltou a falar, devagar, usando sua força com o cuidado que uma corista desempregada usa seu último par de meias em bom estado.

Nos meus momentos de lazer tenho lido Raymond Chandler.