30.8.14

Agora é oficial: minha vida não deu certo.





















O pai da noiva  Fui a um casamento com meu amigo F., da filha do primo dele. Eu estava caída pelo pai da noiva pelo fato de ele ser físico. Achava que poderíamos formar um par perfeito: ele físico, eu teoria do caos. Sentamos em uma das mesas da família. Mas ela estava vazia, pois todo mundo se movimentava pra lá e pra cá para rever amigos e parentes. Só ficamos eu e o Johnny, filho do pai da noiva. Ele é esquizofrênico, é novíssimo, vinte e poucos anos. Quase não falava. "Por que quando te chamam de Johnny você não diz meu nome não é Johnny?". "Não vi o filme", respondeu. "Não gosto de drogas". 

Conversamos pouco, mas ficamos muito tempo juntos. "Você deveria dizer meu nome não é Johnny, seria muito legal". Ele calado. Fazia algumas coisas estranhas, mas não lembro mais. Tipo comer com colher. Não lembro. A gente conversava, mas era preciso puxar o diálogo. Daí o pai da noiva me chamou para dançar. Dançar junto. "Espera, vou dançar com seu pai". foi muito bom. Depois voltei. "Vamos dançar!" Ele ficou na dúvida, parecia totalmente apático. Tocava um twist. Não sou boa nisso. "Bora!". Ele foi, dançamos, ele sempre de cabeça baixa, e eu sempre repetindo "Levanta a cabeça, João". Ele sempre levantava. O mais bacana estava por vir. 


Quando o restaurante estava fechando sentamos no degrau da porta, enquanto as outras pessoas resolviam como fazer para ir embora, táxi, carona, essas coisas. Então o pai dele perguntou: "Gostou da festa Johnny?" E ele, chateado: "Meu nome não é Johnny!". Foi bárbaro. O pai sorriu. O menino disse: "Gostei porque conheci a mulher mais linda e maravilhosa do mundo". Quer dizer. Nem se eu pagasse alguém pra isso poderia ter sido mais legal. Gostaria de ver o João de novo, gostaria de vê-lo sempre. 






















via


















Álbum    Tenho apenas três fotos da minha infância: outras nunca vi. Na que mais gosto estou no sítio, é uma foto bem pequena, uso uma jardineira, um lenço florido na cabeça e pareço encantadora. Sentado ao meu lado, em uma ponte sobre um pequeno rio, meu irmão. O meu irmão. Devo ter um pouco mais de dois anos. É minha foto predileta. As outras duas são fotografias de primeira comunhão, estou em frente a um pequeno altar, de véu curto, e uso um vestido branco largo, assexuado como um anjo. Tenho sete anos. Meus olhos doces, inofensivos, contém perguntas que jamais foram feitas.