Clarinha atravessando para pegar a balsa.








(...) Foi aqui que conhecemos algumas das pessoas mais interessantes que encontramos nessa viagem. Mark, um inglês que viaja há anos somente com uma mochila (não pense que é um pequeno mochilão, mas uma mochila mesmo, daquelas usávamos na escola), Lukas, um alemão que estava descendo desde o Egito numa bicicleta e Lorenzo, um romeno que viaja oito meses por ano, escolhe os melhores destinos e leva a mãe no ano seguinte. Mas quem mais gostamos de conhecer foi Henry, um australiano de 63 anos, que veio só para o Malawi porque não tinha mais espaço no seu passaporte para visitar outros países.


Trecho do diário da Maria Clara, em Malawi.

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A gente paga uma conta. Faz um trabalho. Lava uma louça. Põe a roupa na máquina. Toma banho de chuveiro. Dá uma caminhada. Pega o metrô. Toma um chope. Olha pra ver se tem mensagem no celular. Faz uma comidinha. Lê um livro. Vai ao caixa eletrônico. Arruma os livros na estante. Rouba umas flores na rua. Escolhe crédito e diz que não precisa da outra via. Tira uma foto. Às vezes, coloca despertador. Pega ônibus. Tem um compromisso no centro da cidade. Escolhe um filme na Netflix. Responde um email. Pega um uber. Procura uma clínica para marcar exame. Arruma umas papeladas. Registra um documento no cartório. Lava o chão da cozinha.



Estou sempre pensando no Mark, no Lukas. E como nós vivemos de maneira constrangedoramente banal.