Hoje fiz mil coisas na rua e na volta resolvi entrar na igreja que fica em frente à minha rua. Estava vazia, com exceção de um guarda municipal, sentado do outro lado e bem mais na frente que eu. Dois homens e um rapazinho decoravam a igreja para um casamento, com copos-de-leite e flores amarelas.

Tentei me concentrar mas não podia, não conseguia deixar de pensar o que um bom cronista faria com aquilo que eu estava vendo: o molequinho de jeans, tênis e camisa do flamengo escalava o altar como se estivesse subindo um muro pra pegar uma pipa. Subia e descia, entre os candelabros e as imagens sagradas, para arrumar as flores no seu ponto mais alto.

Mas o que mais me impressionava era a fé do guarda municipal. Ele estava imóvel, os braços esticados sobre o encosto e a cabeça respeitosamente inclinada pra frente. Não se movia. Não conseguia parar de olhá-lo e invejei seu poder de concentração e sua fé. Depois de muito tempo, ele olhou o relógio e voltou à mesma posição. Imaginei que fosse seu horário de almoço e chorei. Choro por qualquer coisa e estava chorando por ver aquele senhor, ali, entregue aos seus pensamentos.


Quis saber se ele estava com problemas, triste, agradecendo ou pedindo por alguém da família que estaria padecendo de alguma dor. Assim, de costas, não sei pq ele me lembrava um personagem de Lawrence Block. Fiquei totalmente tomada pela fé daquele homem e foi difícil me concentrar em outra coisa. Simplesmente não conseguia sair dali.

Quando resolvi ir pra casa, fui andando em direção ao altar, com a intenção de ver o seu rosto. Foi então que percebi que ele estava batendo cabeça, como os operários que voltam de ônibus para a casa, tarde da noite. Ele estava aproveitando o horário de almoço para dormir.



abril de 2013













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