Narizes





Quando minha gata Laura morreu contei aqui como foi, por não considerar assunto mórbido. Ela foi cremada num sitio em Maricá, onde também havia um hotelzinho, com cachorros hospedados em casinhas e um espaço de bom tamanho pra esticar as patinhas e pegar sol. No jardim havia outros bichinhos, como esquilos (não era esquilo, mas outro animalzinho que não lembro, equivalente por ser incomum).

Quem achar mórbido ler sobre morte, talvez o maior dos tabus, pula o post. Com o Francisco de cama, engolido pela tristeza, fui sozinha, de Uber, seguindo o carro, para São Gonçalo. Achei que seria um lugar frio, talvez um prédio. Mas, em certo momento, entramos em uma longa estradinha de terra e fiquei mais tranquila. Quando cheguei vi que era um lugar mais bonito ainda. Bem, os dois sítios eram lindos. Um burrinho tomava banho. Havia orquídeas nos caules das árvores, gatos, cachorrinhos, galinhas e perus andando pra lá e pra cá. As pessoas eram extremamente gentis.


Diferente do anterior, havia também um pequeníssimo cemitério vertical, onde as pessoas escreveram no cimento declarações de amor ("Laika, meu eterno amor", "Cachorros são anjos disfarçados", "Obrigado por você ter feito parte da minha vida! Te amamos!" e outras parecidas. Fiquei impressionada ao ver quantas cachorrinhas se chamam Laika.)


O sitio era "sereno e triste", como B. descreveu ao ver a foto que enviei por wpp. As árvores lindas, o silêncio quebrado pelo som dos passarinhos. Muitas flores e montanhas. Diferente da Laurinha, o Xerife foi velado, coberto por um tecido de filó. Um rapaz disse que eu poderia ficar com ele o tempo que eu quisesse. Então vou pular a parte íntima da dor.


Eu estava ali ao lado dele. Fixei bem este momento. O momento do agora. Foi difícil liberar seu corpinho e entregá-lo para que fizessem o que deveria ser feito. Fiquei passeando, brincando com os animais, os peixes no pequeno lago. O burrinho, chateado com o banho, foi colocado preso em uma árvore, para se secar.  Ele continuou a comer grama. Comia grama o tempo todo.

Enquanto aguardava, o motorista deitou na parte da frente do carro, com as pernas abertas - não se faz mais Uber como antigamente. Ao final, a moça gentil me entregou uma caixinha branca. Em cima da caixa, um adesivo com desenhos de cachorrinhos e o nome do lugar: Recanto dos amigos.

Já em casa, desgrudei o papel, peguei meus lápis de cor e hidrocores e desenhei estrelas, flores, corações e nuvens. B., com razão, sugeriu que eu não deixasse onde estava, na mesa onde coloco outras coisas - livros, jarro com flores, bolas de Natal (meu lado Kramer), objetos que gosto, pedras etc. Essa mesa é bem conhecida no Instagram, pois vivo mudando tudo de lugar. Levei então para minha mesinha de cabeceira, lotada de outras coisas e bagunçada. Gosto que ele esteja aqui, mesmo de outro modo. Então é isso.


Xerife disse que no céu tem mar. E estrelas, mesmo de dia.






---------- sem revisão final ---------
Graças, ao tuíter, não, sei mais usar, vírgulas.