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Ontem eu fiquei cara a cara com o povo brasileiro. Não um de nós, edredom, lençol limpo, comida na geladeira, geladeira. Um homem de idade indeterminada, nem jovem, nem velho. Estávamos no Jorginho bebendo cerveja. Ele chegou, sem quase todos os dentes da frente, humildemente, perguntando se podíamos ajudá-lo a comprar amendoins, para que ele pudesse revendê-los. Falou docemente que os "homens lá de cima" eram cruéis (não falou cruéis, mas como se fosse), que ele queria trabalhar, que ele queria ter comida para o Natal. Olhávamos todos pra ele, comovidos.Não tinha os dentes da frente, era negro e magro. Não sei o que vestia, porque me concentrei no rosto. Sofrido e pacífico. Eu tinha 55 reais. Dei 5, e agora que estou  escrevendo isso me dá um aperto no peito, queria muito voltar no tempo e dar 50. Queria muito mesmo.