Sobre ontem à noite. Uber.



- Ainda quero chegar a tempo de ver Game of Thrones.
- Ah, você gosta? Não vejo. Não tenho paciência para histórias fantásticas.
Ele diz que os personagens são pessoas comuns e resume a história. Não presto atenção. A cada silêncio, digo "Sei".
- Só pulo a parte dos homossexuais.
- Por que?
- Não gosto daquilo.
- Você é homofóbico?
- Pode ser. É um direito meu.
- É verdade. Mas você sabe que o Brasil é o país que mais espanca gays. Tenho um amigo que estava andando na rua e foi espancado.

(Mentira. Quando isso ia acontecer, numa boate, M. deu com a ponta da bota no queixo do cara. Agora está mais calmo, prefere maquininha de dar choque)

- Também, eles são provocativos. Andar de mão dadas na rua, qual a necessidade disso?
- Mas o que tem demais?
- Não é certo.
- Gay caricato, que faz rir, não tenho nada contra. Não gosto é dos provocativos.
- Você é contra o casamento gay, por exemplo?
- Claro!
- Mas quem é contra o casamento gay, não deve ir à cerimônia. O que a pessoa não pode é se meter na vida dos outros. Cada um casa com quem quer.
- Mas eu não aceito.
- Mas interfere na tua vida? Te prejudica? Então. Que cada um seja feliz.
- Imagino então que você seja contra gays adotarem uma criança.
- Claro! A criança tem direito de escolher o que vai ser.
- Mas uma criança adotada por gays não significa que ela vai ser gay.
- Vai pelo exemplo.
- E se seu filho fosse gay?
[a velha pergunta:]
- Não vai ser não.
- Suponhamos. Você não ia mais gostar dele?
- Ia gostar menos.
- Ele pode fazer o que quiser quando for maior de idade. Não poderia impedir. Mas ser gay é da porta pra fora.

O motorista é jovem.

- Mas você ia querer encontrá-lo?
- Não.
- Nunca?
- Às vezes. Acho que cada um viveria a sua vida.














GoT. Set.